Broas, uma tradição

(English version here)

Enquanto bebo o meu leite com cacau e como uma broa, escrevo esta entrada para relembrar a tradição das broas na minha família.

Tudo começou com a minha avó, desde que me lembro, pois certamente já a minha bisavó e antes dela deveriam de fazer broas em casa. Mas a minha avó foi quem tornou tudo isto muito especial para mim.

Um ou dois dias antes do Dia de Todos os Santos, 1 de Novembro, geralmente à noite enquanto passava a sua novela na tv, lá ela amassava a massa com erva-doce, nozes, pinhões, canela… num alguidar de barro enorme e de cor verde. Depois, fazia uma cruz na massa, dizia uma reza, tapava-a com uma manta axadrezada e deixava-a levedar durante a noite.

No dia seguinte, bem cedo, acendia o forno a lenha. A minha tia chegava, juntamente com as minhas primas, e todas nós – elas, eu e a minha mãe -, tínhamos a tarefa de enrolar broas. “Bolinhas pequeninas!” dizia a minha avó.

Broas enroladas, nos tabuleiros de alumínio da avó.

Broas colocadas nos tabuleiros de alumínio velhos e super usados, pincelar com ovo e zás!, lá desapareciam as broas dentro da boca do forno. Lembro-me do calor que se fazia na sala do forno, do rosto suado e queimado da minha avó, mas que fazia aquilo com tanto gosto e alegria.

Enquanto uns tabuleiros estavam no forno, mantínhamo-nos ocupadas a enrolas mais broas até a massa acabar. A minha prima M. gostava muito de comer a massa crua, coisa que ainda hoje faz. Haverão sempre coisas que não mudarão.

Passado uns bons minutos, broas prontas a serem retiradas; eram colocadas rapidamente dentro de outro alguidar de barro e tapadas com uma toalha bordada, para se manterem quentinhas.

Assim se passaria uma manhã inteira. Entretidas a conversar, a enrolar broas, a comê-las, claro.

Forno acesso, a minha avó aproveitava para fazer o almoço também; geralmente um peixe com batata a murro, ou uma carne tenrinha… e como se ainda não bastasse, umas batatas doces também para sobremesa.

Os homens geralmente apareciam pela hora de almoço, e sentávamo-nos todos à volta da mesa para a partilha. Eu na altura nem gostava de batatas doces – era uma criança muito esquisita então -, e broas, só conseguia comer uma ou duas.

E assim foi, durante uns anos, enquanto a minha avó teve saúde e viveu entre nós. “Aprende a receita!” dizia ela à minha mãe e tia. “Para quê? As suas serão sempre as melhores”, respondiam elas.

Até ao dia em que a minha avó partiu e deixou um grande vazio. Um ano, que não houve “broas da avó”.

Mas depois, alguém – e não me lembro quem – perguntou: “e porque não experimentar nós?”. Remexemos nas receitas velhas que a minha avó guardava e lá a encontrámos! A receita secreta das suas broas, e que ainda hoje, são consideradas as melhores da terra.

Ingredientes misturados e massa amassada – tarefa hercúlea para os kg de broas que são -, era deixada a levedar durante a manhã. Almoçávamos, bebíamos o café depois disso e durante a tarde arregaçávamos as mangas para enrolar as broas.

A minha mãe ficou desde então responsável pelo forno – que nem nunca tinha aprendido a utilizar, mas que hoje é mestre. E tabuleiro atrás de tabuleiro, lá se faziam as broas até o alguidar da massa ficar vazio.

A minha mãe a espreitar o forno; nova dose de broas à espera de entrar no calor.

Broas feitas e quentinhas, sentávamo-nos à volta da mesa, a beber um chá e a degustar as nossas broas que eram deliciosas. “Estão muitos boas, mas as da avó era bem melhores!”.

Mas orgulhosamente, e todos os anos, repetíamos o ritual, sempre com o espírito da minha avó presente.

Até ao ano que me mudei, e tudo mudou… Agora faço as minhas broas na minha casa, num forno eléctrico. Ficam boas, mas não têm aquele sabor especial de um forno a lenha.

As minhas broas, feitas na minha casa.

Não vejo o dia em que possa juntar-me ao gangue novamente e fazer broas com elas. Quem sabe, com umas mãozinhas mais pequenas a ajudar, já que a família está a crescer.

Mas até esse dia chegar, vou continuar a fazer as broas, com a receita da minha avó, para a relembrar e a tantos momentos felizes da minha infância. Afinal, a minha avó passou-nos algo muito especial, e hoje, já não me fico apenas por uma ou duas broas… mas as tuas avó, serão sempre as melhores.

Feliz Dia de Todos os Santos!

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